Retornado da grande e colossal mini-maratona de Lisboa, importa pois discorrer sobre a dita, seus detalhes sórdidos e efectuar o respectivo balanço sociológico-competitivo.
Mal o sol raiou, pus os alfinetes de dama a fixar o dorsal à t-shirt, tarefa plena de masculinidade aliás, e enfiando-me no comboio rumo à margem sul (yo!), juntei-me à plebe.
Ao invés de me extasiar com a paisagem que a viagem sobre carris nos proporciona, a minha atenção foi desde logo cativada pela profusão de roupagem desportiva, calçado competitivo, banha, mochilas Louis Vuitton da contrafacção e lenços do Banif atrelados aos garganis dos lisboetas que me acompanhavam na composição da Fertagus.
Estavam reunidas as condições para uma manhã pindérica na travessia do Tejo.
Esta minha premonição reforçou-se com um encontro imediato em 3º grau com uma banda filarmónica na estação do Pragal e com o ecoar de cantares de folclore. Tive medo. Voltar para trás, rumo a Lisboa era uma solução. Afinal, podia aproveitar e fazer um treino na Cidade Universitária, por ventura mais extenso que os 7200 metros que a mini-maratona me impunha. Mas algo superior me impeliu a continuar em frente. Dai a nada, estava na ponte do Pragal, com gente por todos os lados, debitando as mais variadas pérolas de sapiência popular:
- “O Sócrates vem para aqui mas é de helicóptero, metem-no lá em baixo e já está!”
- “E se fôssemos ali pelos arbustos!”
- Há ali polícia a controlar os dorsais!”
- “O que são dorsais?”
- ” Não tens um!”
- “É o númaro?”
- “Está calor!”
- “Eu trouxe dois bonés!”
Volvidos trinta minutos de contacto com as massas e respectivos odores, estava na praça da portagem, mais desafogado.
Pressionado a mole humana, lá me fui aproximando da linha de partida. Quando não deu para mais, não deu para mais e dei por mim a estacionar junto a um grupo de populares que não paravam de exclamar, disfarçadamente “Porreiro pá!”. O nosso primeiro-ministro estava por perto. Trazido de heli, canadair, chaimite ou por outros meios, estava a meros 20 metros de nós. E a Rosa Mota também. Tive medo. Da Rosa Mota, claro.
A bizarria atingiu o seu auge ao avistar um monge com uma cruz, apalpando disfarçadamente algumas incautas moçoilas mais roliças e, já após o tiro de largada, três peludas noivas, com barba de três dias, caminhando em plena ponte 25 de Abril, qual via rumo a um altar de depravação, deboche, água e powerade.
Afastando-me desse contexto aterrador e após desviar alguns seres que teimavam em caminhar pausadamente na faixa da esquerda, dei por mim já a meio da ponte junto a gente como eu. Gente que estava ali para correr, disfrutar da vista, da brisa e, com uma passada firme mas constante, chegar ao Mosteiro os Jerónimos em estado não-comatoso. Conseguimos. Houve quem se assenhorasse das águas e powerade, quem as vertesse pela uretra nos arbustos da via rápida após a ponte, quem gemesse, quem se armasse em carapau de corrida para ser apanhado escassas centenas de metros depois, mas… todos lá chegámos.
Para o ano há… meia. Maratona, claro. ;)