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Bullying

by Estado de Fluxo on Maio 19th, 2007

BullyingTermo em voga ultimamente, mas que qualquer aluno ou ex-aluno com o mínimo poder de observação constatou ao longo do seu historial escolar.

Bullying is the intentional tormenting of others through verbal harassment, physical assault, or other more subtle methods of coercion such as manipulation. There is currently no legal definition of bullying.

Agora há um caso português, descrito num artigo do Público, que pode servir de exemplo, quase caricato, por magnificar as variáveis intervenientes neste fenómeno:

O Miguel ainda não foi às aulas este período. Há um somatório de episódios a atormentar a sua memória. Chamam-lhe “surdo”, por ter perdido parte da audição com os tratamentos. Chamam-lhe “porco”, por não usar o balneário. Um dia, um dos rapazes apanhou-o no corredor e “obrigou” outro a puxar-lhe as calças, enquanto lhe chamava “aquilo que é o contrário de gostar de mulheres”. Já lhe aconteceu encontrar a mochila “cheia de ranho”…

A total ausência de normas de conduta, de humanidade, de percepção do outro. Mais que em contexto escolar, estas noções são adquiridas por educação parental.

Lizete Cardoso e o marido esforçaram-se. Semana após semana, deslocaram-se à escola para sensibilizar a directora de turma. “Até lhe oferecemos o livro A Sala de Aula sem Bullying, de Allan L. Beane, com propostas de trabalho.” “Imensas vezes” pediram-lhe, e à presidente do conselho executivo (CE), para mudar o seu filho de turma. Assustaram-se quando a pedopsiquiatra falou em “risco de agravamento do quadro clínico, com eventuais passagens ao acto em termos de auto-agressividade”. Findas as férias da Páscoa, decidiram não arriscar. Preferem não levar o filho às aulas a vê-lo definhar.

Com sensibilização, é difícil causar impacto. A responsabilização aqui é sobretudo dos pais do aluno que agride. O jovem agressor não pode ser inimputável para umas coisas e imputável para outras. Não há directora de turma, carta, ofício, suspensão para “reflectir”ou “trabalho comunitário” por parte dos agressores que evite situações de bullying. Os pais devem ser chamados à pedra. Ouvir, não confabular, perceber que “não é a escola que os tem que educar” e tendo défice de responsabilidade, serem educados para corrigir isso.

O artigo no Público, continua, caracterizando a inércia e promoção da paz podre, tão apanágio da forma de resolver os problemas à portuguesa:

Recorreram à Inspecção-Geral da Educação (IGE). Agostinho Santa, coordenador da área de provedoria, enviou, a 23 de Abril, uma carta ao CE a salientar que “interessa, sobretudo, atender aos direitos pessoais e educativos” do menor. A recomendar, de forma explícita, a resolução do problema, “ainda que para tal seja necessária a tomada de decisões com carácter de excepcionalidade”. Ironia: a escola tem um CE interino desde 24 de Abril. O presidente interino, Laureano Valente, não responde pela antecessora, que até ali tomara conta do caso. Considera que “a mudança de turma, no momento actual, é um cenário a excluir, por razões de ordem pedagógica [como assim? Já não há razões pedagógicas suficientes para fazer a transição? O que é que se pode aprender no meio de pequenos gorilas?]“. A mudança dever-se-á fazer no início do próximo ano lectivo, com cuidado, para que nada se repita.

Miguel não tem tido uma relação fácil com o sistema educativo. No 1.º ciclo, passou dois anos isolado por força dos tratamentos. No regresso às aulas, no 4.º ano, tinha de comer qualquer coisa às 9h00 e de tomar um fortificante no intervalo. “A professora levou-me ao CE, disse que o meu filho perturbava as aulas por comer uma bolachinha”, indigna-se a mãe.

Lá está, é das razões pedagógicas, pela certa…

Talvez um miúdo saudável aguentasse. Talvez os outros pais achem os de Miguel “maluquinhos” ou “chatos” por insistirem tanto na mesma tecla [Compreende-se que seja extremamente incomodativo constatar que não se está a ser bom pai. É chato, mas passemos para outra, sim...?]. E isso que importa a Lizete e ao marido? O filho “já sofreu muito, já mostrou ser um grande lutador. Agora, está bem, mas nunca se sabe”.

Suposições extremamente estúpidas. O cancro não transforma uma situação de bullying em menos desculpável. Apenas mais facilmente enquadrada. Porque, tristemente, continua-se a ser necessário “fazer o desenho” para que as mentes supostamente adultas entendam fenómenos em contexto escolar. E isto, na minha opinião, mais não é que um sintoma da inépcia emocional, pedagógica e maturacional dos encarregados de educação de muitos alunos…

A bold e comentários entre[] feitos por mim, com a inevitável ironia..

From → Educação, Sociedade

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