É fazer as contas

Alunos acham que sorte é mais importante que disciplina
Ora ai está um título eye catching!
Apanhado esse chamariz jornalístico, referindo também que se baseia num estudo, o leitor pensa “bom, isto é material para ser levado a sério, ora deixa cá ler o artigo…”.
Foi o que eu fiz.
Nas primeiras linhas, impressiona com a referência ao calibre institucional de onde provém o estudo
O «Questionário de Avaliação das Percepções dos Alunos relativamente à Educação e aos estabelecimentos de Ensino» foi realizado ao longo do ano passado, obteve a participação de 2.155 alunos, e foi divulgado hoje pelo Conselho Nacional de Educação.
Não pode falhar, isto é mesmo a sério. Até que enfim que a malta vê cientificamente que os alunos já não se deixam enganar: um tipo pode dar uma cabeçada num prof, que, com um bocado de sorte, safa-se.
O pior vem depois…
Na auto-avaliação do rendimento escolar, 84% dos alunos considera-se no nível «Suficiente» (45,6%) ou «Bom» (38,6%).
Apenas 2,6% dos alunos se considera «Muito bom» e 13,2% diz que é «Fraco».
Sobre as razões para o rendimento escolar, um em cada quatro alunos (24,1%) respondeu que se deve ao «Esforço pessoal», 13,8% apontaram o «Interesse pelos estudos» e 11,2% as «capacidades pessoais».
Por outro lado, os alunos consideram que o rendimento obtido se deve mais a factores como «Sorte/Acaso» (1,6% das respostas) e «Distância de casa ao estabelecimento de ensino» (1,3%) do que à «existência de regras/disciplina», que apenas obteve 1,1% das respostas.
Afinal… havia mais factores, tipo… vinte vezes mais referidos pelos alunos do que os do título. Mas o jornalista, na sua imaturidade estatístico-matemática, resolveu destacar aqueles factores mais apelativos à actual problemática da guerra civil entre a população estudantil e os professores. Guerra civil essa que é característica de uma minoria de putos estúpidos e de familiares que transcendem esse nível de estupidificação, mas eu, como não me gosto de ficar atrás quando há malta a ver se bate recordes de estupidez, acho que merecem mais destaque do que a maioria do maralhal. O que vale, é que estatística é o meu forte.
Sendo assim, na humilde esperança que a comunidade jornalística que faz estas sínteses de estudos ponha os olhos neste breve desabafo, vou-vos explicitar em que erros incorreram.
Primeiro ponto. O tamanho, neste caso, importa. E a amostra são 2155 alunos. Fixem esse número. Não custa muito. Vá: dois mil cento e cinquenta e cinco.
Depois, para vos facilitar a vida, contemplem esta bela tabela, com os valores percentuais das respostas dadas pelos alunos aos motivos para o sucesso escolar:
| Motivo | % |
| Esforço pessoal | 24,1 |
| Interesse pelos estudos | 13,8 |
| Capacidades pessoais | 11,2 |
| Sorte / Acaso | 1,6 |
| Distância de casa ao estabelecimento de ensino | 1,3 |
| Existência de regras / disciplina | 1,1 |
E por fim, calculando o número de alunos correspondente a essa percentagem, tendo em conta a amostra (dois mil cento e cinquenta e cinco), temos outra magnífica tabela com dados muito elucidativos:
| Motivo | n |
| Esforço pessoal | 519 |
| Interesse pelos estudos | 297 |
| Capacidades pessoais | 241 |
| Sorte / Acaso | 34 |
| Distância de casa ao estabelecimento de ensino | 28 |
| Existência de regras / disciplina | 24 |
Reportando-nos aos factores que os jornalistas do diáriodigital optaram por destacar, ficamos com 34 alunos que acham que boas notas é para quem tem sorte e 24 alunos que acham que é para quem ande na linha e não arreie na stôra por dá cá aquela palha. Temos aqui um diferencial de 10 alunos. Neste parágrafo, estamos a discutir 58 alunos, 2,69% da amostra, 2,69% que ocupam o destaque por inteiro no título da “notícia”, na tentativa de produzir um maior impacto e vender a ideia da violência escolar e menosprezar a disciplina, recorrendo a um twist estatístico mal conseguido, inválido e novamente ignorando a imensa maioria de alunos e as reais percepções causais face ao sucesso escolar.
Segundo o estudo levado a cabo pelo Conselho Nacional de Educação, as razões que os alunos atribuem para o sucesso escolar são o esforço pessoal, o interesse pelos estudos e as capacidades pessoais. E o resto é conversa…
